lquer mestre de armas
decente podia ensinar a Arya os rudimentos sobre estocadas e
paradas sem este disparate de vendas, rodas e saltos de um pé
só, mas conhecia suficientemente bem a filha mais nova para
saber que não havia discussão com aquela obstinada projeção
de queixo.
- Como quiser - ele respondeu, Certamente iria se cansar
daquilo em breve. - Tente ter cuidado.
- Terei - ela prometeu solenemente enquanto saltava do pé
direito para o esquerdo num movimento fluido.
Muito mais tarde, depois de atravessar a cidade com as filhas
e colocá-las em segurança na cama, Sansa com seus sonhos e
Arya com seus hematomas, Ned subiu até os próprios
aposentos, no topo da Torre da Mão. O dia estivera quente, e
o quarto fechado estava abafado. Ned dirigiu-se a janela e
abriu as pesadas venezianas a fim de deixar entrar o ar fresco
da noite. Do outro lado do Pátio Grande reparou no
tremeluzente brilho da luz de velas nas janelas de Mindinho.
Já passava bastante da meia-noite. Junto ao rio, as festas
estavam apenas começando a murchar e morrer.
Pegou o punhal e o estudou. A arma de Mindinho, que Tyrion
Lannister ganhara dele numa aposta de torneio, enviada para
matar Bran em seu sono. Por quê? Por que queria o anão ver
Bran morto? Por que alguém ia querer ver Bran morto?
O punhal, a queda de Bran, tudo aquilo estava de algum
modo ligado ao assassinato de Jon Arryn, podia senti-lo nas
entranhas, mas a verdade sobre a morte de Jon permanecia
para ele tão envolta em brumas como quando começara a
investigar. Lorde Stannis não voltara a Porto Real para o
torneio. Lysa Arryn mantinha-se em silêncio, por trás das
muralhas do Ninho da Águia. O escudeiro estava morto e
Jory continuava a investigar os prostíbulos. Que tinha ele
além do bastardo de Robert?
Que o carrancudo aprendiz do armeiro era filho do rei Ned
não tinha dúvida. Os traços dos Baratheon estavam
estampados em seu rosto, no queixo, nos olhos, nos cabelos
negros. Renly era novo demais para ser pai de um rapaz
daquela idade. Stannis, demasiado frio e orgulhoso na sua
honra. Gendry tinha de ser de Robert.
Mas, ao saber tudo isso, o que aprendera? O rei tinha outros
filhos ilegítimos espalhados pelos Sete Reinos. Tinha
reconhecido abertamente um de seus bastardos, um rapaz da
idade de Bran, cuja mãe era bem-nascida. O rapaz estava
sendo criado pelo castelão de Lorde Renly em Ponta
Tempestade.
Ned também recordava a primeira criança gerada por Robert,
uma filha nascida no Vale quando ainda era pouco mais que
um rapaz. Uma doce garotinha; o jovem senhor de Ponta
Tempestade a amara perdidamente. Costumava fazer visitas
diárias para brincar com o bebê, muito depois de ter perdido
interesse pela mãe. Era frequente arrastar Ned para lhe fazer
companhia, independente de sua vontade. Compreendeu de
súbito que a menina devia ter agora dezessete ou dezoito
anos; mais velha que Robert era quando nascera. Estranho
pensamento.
Cersei podia não estar contente com as escapadelas do senhor
seu esposo, mas no fim das contas pouco importava se o rei
tinha um bastardo ou uma centena. A lei e o costume poucos
direitos davam aos filhos ilegítimos. Gendry, a moça no Vale,
o rapaz em Ponta Tempestade, nenhum deles podia ameaçar
os filhos legítimos de Robert...
Suas reflexões foram interrompidas por um suave toque na
porta.
- Um homem para vê-lo, senhor - chamou Harwin. - Não quer
dizer o nome.
- Mande-o entrar - Ned respondeu, curioso.
O visitante era um homem corpulento com botas molhadas e
completamente enlameadas, um pesado manto marrom da
ráfia mais grosseira, as feições escondidas por um capuz, as
mãos enfiadas em volumosas mangas.
- Quem é você? - Ned perguntou.
- Um amigo - disse o homem encapuzado numa estranha voz.
- Temos de conversar a sós, Lorde Stark.
A curiosidade era mais forte que a cautela.
- Harwin, deixe-nos - ordenou. Só depois de estarem a sós, por
trás das portas fechadas, é que o visitante puxou o capuz para
trás.
- Lorde Varys? - Ned exclamou, estupefato.
- Lorde Stark - disse Varys polidamente enquanto se sentava.
- Posso lhe pedir uma bebida? Ned encheu duas taças de
vinho do verão e entregou uma delas a Varys.
- Poderia ter passado por você que nunca o reconheceria - ele
disse, incrédulo. Nunca vira o eunuco vestido de outra coisa
que não fosse seda, veludo e os mais ricos damascos; e este
homem cheirava a suor, não a lilases.
- Era esta a minha maior esperança - Varys respondeu. - Não
seria bom se certas pessoas soubessem que conversamos em
particular. A rainha o vigia de perto. Este vinho é de primeira
escolha. Obrigado.
- Como passou pelos meus guardas? - Ned perguntou. Porther
e Cayn tinham sido colocados fora da torre, e Alyn, nas
escadas.
- A Fortaleza Vermelha tem caminhos que só são conhecidos
por fantasmas e aranhas - Varys sorriu como quem pede
perdão. - Não lhe tomarei muito tempo, senhor. Há coisas que
precisa saber. E a Mão do Rei, e o rei é um tolo - a voz do
eunuco tinha perdido o timbre rico; agora era fina e aguçada
como um chicote. - É seu amigo, e